Redução de danos com LSD

Sandro Rodrigues na Ala Psicodélica da Marcha da Maconha-RJ. 2014.

 

 

 

 

 

 

 

Vídeo sobre LSD e redução de danos do integrante da APB, Bruno Logan, no canal RD com Logan: https://www.youtube.com/watch?v=wBKG68c9b6c

 

Drope com-ciência

Texto do integrante da APB, Fernando Beserra, inicialmente publicado no Hempadão.com

 

Não é novidade que no regime proibicionista e no mercado desregulado os usuários correm riscos reais de tomarem substâncias as quais nem imaginam. No consumo das balas e MDs, por exemplo, pode-se usar inadvertidamente o MDA, o MDE, a metilona, a butilona, o PMA, o PMMA, o PCP, a metanfetamina, a ketamina, a cafeína, etc. Por incrível que pareça, uma das balas testadas no Ecstasy.data acusou a presença de delta-9-THC. A lista é extensa. Mas engana-se quem acredita que tal fenômeno ocorre apenas com as balas. Com o doce a situação é muito semelhante. E tudo começa, muitas vezes, com um forte amargo na língua, além de dormência nos lábios e na língua. Nestes casos, lamentavelmente, tudo indica que o papel ou a gota não tinham LSD. Muito embora também seja verdade que a ausência de gosto não seja sinônimo de LSD, mesmo quando a onda bate. Só para dar exemplos, as lisergamidas LSZ e o AL-LAD podem estar inseridos no blotter, não tem gosto e não são o LSD. Uma grande quantidade de substâncias pode adulterar tanto o blotter (papel) quanto as gotas que supostamente contém a famosa dietilamida de ácido lisérgico (LSD). Muitos psiconautas desavisados acabam recebendo, por exemplo, as substâncias que entraram no mercado ainda este século, como os distintos grupos do 25x-NBOMe. Trata-se da substituição de um grupo amina das fenetilamidas como o 2CI, 2CB, 2CC, etc. com o grupo do 2-metoxibenzil (BOMe), ou, como explicitado no Erowid, derivados do grupo benzil-oxi-metil. Estas fenetilamidas variam na presença de iodo, bromo, cloro, etc. Deste modo, as fenetilamidas que tinham efeitos psicoativos apenas em quantidades em mg, passam a ter efeitos que se iniciam em microgramas (ug) e adequam-se bem aos blotters convencionais, bem pequenos e finos. Os NBOMe, como já expomos em postagens anteriores, apresentam diversos riscos ausentes no uso de LSD. O primeiro que se deve notar é ausência de overdoses fatais no consumo de LSD, em distinção aos 25x-NBOMe.

Os 25x-NBOMes foram inicialmente sintetizados por Ralph Heim na Alemanha, em 2003 na Free University of Berlin. Depois foram estudados por David Nichols na Pardue University. O Centro Europeu de Monitoramento de drogas e dependência de drogas (EMCCDA) notou, em 2012, que haviam 25x-NBOMes vendidos em complexos de ciclodextrina (EROWID, 2013). Os 25x-NBOMes mais populares são o 25I-NBOMe, o 25C-NBOMe e o 25B-NBOMe. Há de se considerar que antes de 2013 poucas drogas eram encontradas em blotters como adulterantes[1]. Entre 2007 e 2010 o bromo-dragonfly, uma fenetilamina psicodélica, apareceu em blotters e gerou algumas notícias sobre mortes na Europa e EUA (EROWID, 2013). Possivelmente a sua impopularidade foi decorrente de um período maior de ação que o LSD, de seus riscos aumentados, além de uma síntese tecnicamente difícil. Além disso, anfetaminas psicodélicas como DOB, DOI e DOC também estiveram presentes em blotters nos últimos 40 anos, no entanto, nunca foram muito comuns.

Entre as anfetaminas psicodélicas encontra-se o 2,5-dimetoxi-4-metanfetamina (DOM), sintetizado pela primeira vez em 1963 por Alexander Shulgin. Na década de 1960, quando havia dificuldade de conseguir ergotamina para produção de LSD, Owsley Stanley sintetizou o DOM e doou cinco mil capsulas para a celebração do Verão do Amor (RODRIGUES; BESERRA, 2015). As capsulas circularam com o nome de Serenidade, Tranquilidade e Paz (STP) coisas que não conseguiram produzir. As doses que chegaram em São Francisco foram de 20mg – bem acima das doses altas que Shulgin tinha testado em si. Os prontos-socorros lotaram e os médicos, acreditando tratar-se de bad trips de LSD, prescreviam clorpromazina, uma substância antipsicótica, para sedar/acalmar os usuários. Sem o saber, os efeitos do clorpromazina que funcionariam – embora não perfeitamente – para o LSD potencializavam os efeitos do DOM (RODRIGUES; BESERRA, 2015). Não conhecer a droga de uso pode resultar em diversos inconvenientes, que vão desde seus efeitos farmacológicos, subjetivos, até mesmo na necessidade de cuidado por profissionais de saúde.

Os riscos em doses altas dos 25x-NBOMe incluem delírios e a morte devido a seus efeitos farmacológicos. Há relatos de taquicardia, hipertensão, agitação, acidose metabólica, convulsão, retenção urinária, taquipineia, agressividade (TRIPBY), além de hiperpirexia e lesão renal aguda (WHO, 2014), para citar alguns dos efeitos negativos. As overdoses mais perigosas podem ser tão baixas como de 3 a 5mg (EROWID, 2013). Casos relatados, embora não de forma científica, indicam que doses ainda menores – cerca de 1500ug, podem causar complicações clínicas e mesmo serem fatais (TRIPBY). Os riscos são maiores quando a substância é insuflada. Tipicamente a substância é utilizada via sublingual em blotters.

Mais recentes e ainda com riscos desconhecidos estão os 25x-NBOHs. Enquanto psiconautas experientes realizam testagens experimentais com novos fármacos – e isso não é de hoje, vide os Shulgin -, um fenômeno muito distinto ocorre quando há o uso inadvertido destes novos fármacos por pessoas que não escolheram ou se prepararam para tomar a substância. Especialmente nestes últimos casos, não é rara a ocorrência de problemas graves.

Acerca dos efeitos psicoativos dos 25x-NBOMe os mesmos são decorrentes, possivelmente, de sua ação serotoninérgica. Os 25x-NBOMe são agonistas de receptores serotoninérgicos como o 5HT2A. Para maiores detalhes sobre aspectos gerais dos NBOMe o site Mundo Cogumelo tem uma excelente coleção de textos. Remeto a um deles: 25B-NBOMe: análise completa da substância (http://mundocogumelo.com.br/25b-nbome-e-seus-efeitos-analise-completa-da-substancia/).

Há ainda os usuários mais experientes que, por vezes, realizam um malabarismo farmacológico e acreditam que, pela onda, poderão descobrir toda e qualquer substância presente no blotter. Esta abordagem, ao mesmo tempo que carrega uma valorização do conhecimento prático dos usuários de doce e gotas, também possuí sua sombra. Os usuários, ao fazerem isso, renegam ao vazio toda perspectiva do set e do setting, já tão bem corroborada – para além da academia, diga-se de passagem. Portanto, mesmo os mais experientes psiconautas, apenas pelo efeito da substância, não seriam capazes de agir como cromatógrafos ambulantes, mesmo que seus conhecimentos sejam dignos de respeito e não devam ser desconsiderados. Os conhecimentos de usuários experientes, quando acompanhado de uma atitude ética, podem ser fundamentais para criação de um setting e manejo adequado para que psiconautas que tiveram experiências difíceis possam superar suas dificuldades e integrá-las, expandido o campo da consciência. Ainda no que concerne à testagem: a testagem colorimétrica, via Erlich, permite conhecer se há ou não lisergamidas no blotter e o Marquis ou o Mandelin, por exemplo, contribuem para identificar alguns dos 25x-NBOMes. Trata-se de uma alternativa rápida, embora não tão precisa, que hoje pode nos ajudar a conhecer um pouco melhor sobre estes fármacos e cuidar de nossos corpos. Se a ciência se reúne à consciência e à experiência, temos uma tríade de respeito para fomentar a redução de riscos e danos e potencializar os benefícios no consumo de fármacos sintéticos e semissintéticos.

É claro que também existem alguns entusiastas dos 25x-NBOMe e o tema merece menção. Quando os NBOMe surgiram e começamos a discutir o assunto no Brasil, me recordo de algumas pessoas chamando os BOMe de “crack dos psicodélicos”. Acredito que a política de drogas que temos, insuflando os estigmas e preconceitos, já seja suficiente para promover a desinformação e a projeção da sombra em usuários de substâncias tornadas ilícitas. Não cabe a nós dar continuidade a esta projeção. Pelo contrário, a criação de settings favoráveis ao uso de psicodélicos e a promoção de espaços de solidariedade é uma atitude digna e louvável. As pessoas usarão drogas quer outros queiram ou não. Auxiliar com consciência, com ciência e com amor é estar ao lado e auxiliar o desenvolvimento e a expansão da consciência. Jonathan Ott chamou de chauvinismo farmacológico a tendência dogmática de acreditar que sua droga de escolha seja melhor do que a do outro. Muito melhor do que o posicionamento narcísico é levar informação qualificada, para que as pessoas tenham cada vez mais autonomia para realizar as suas escolhas de forma lúcida e consciente. Uma pedagogia para autonomia.

Com ciência – consciência.

Com ciência e com amor.

 

REFERÊNCIAS:

 

FIRE EROWID; EARTH, E. Spotlight on NBOMes. Erowid Extracts #24, 2013. Disponível em: <https://erowid.org/chemicals/nbome/nbome_article1.shtml>.

World Health Organization (WHO). 25I-NBOMe – crítical review report. Genova, 2014

MINDFILDS. 25B-NBOMe e seus efeitos: análise completa da substância. Mundo Cogumelo. Disponível em: <http://mundocogumelo.com.br/25b-nbome-e-seus-efeitos-analise-completa-da-substancia/>.

RODRIGUES, Sandro Eduardo; BESERRA, Fernando Rocha. Drogas pesadas em discussão no Primeiro Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro. Argumentum, Vitória (ES), v. 7, n.1, p. 259-294, jan./jun. 2015.

TRIPBY. 25I-NBOMe. Disponível em: <http://tripby.org/psicoativos/25i-nbome/?i=1>.

 

Mais no Hempadão:

 

BESERRA, Fernando Rocha. Seu doce/ácido era LSD ou NBOMe? Portas da Percepção. Hempadão, 2013. Disponível em: <http://hempadao.com/seu-doce-acido-era-lsd-ou-nbome/>.

BESERRA, Fernando Rocha. Polêmica envolve morte na USP e falso LSD: entenda! Portas da Percepção. Hempadão, 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/polemica-envolve-morte-na-usp-e-falso-lsd-entenda/>.

DAVID, Wslex. Ainda sobre LSD e NBOMe… Portas da Percepção. Hempadão, 2013. Disponível em: <http://hempadao.com/ainda-sobre-lsd-ou-nbome-portas-da-percepcao-245/>.

LEFEVRE, Jean. Diferenças entre NBOMe e LSD. Portas da Percepção. Hempadão, 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/diferencas-entre-nbome-e-lsd-portas-da-percepcao-ed-277/>.

LEFEVRE, Jean. Diferenças entre 25C-NBOMe, 25I-NBOMe e 25B-NBOMe. Portas da Percepção. Hempadão, 2014. Disponível em: <http://hempadao.com/diferencas-entre-25c-nbome-25i-nbome-e-25b-nbome/>.

[1] – Confira sobre o assunto: no site Enteogenico a tradução do Luis Paulo (2010) do texto: Análise de amostras de LSD http://enteogenico.blogspot.com.br/2010/07/analise-de-amostras-de-lsd.html e o texto do Coletivo Desentorpecendo a Razão. http://coletivodar.org/2010/04/nova-secao-do-dar-cacadores-de-narco-mitos-nosso-lsd-tem-anfetamina/.

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