Experiências psicodélicas difíceis

Manual de Redução de Danos do Projeto Zendo (do Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies), traduzido pelo coletivo ResPire: <https://www.facebook.com/projetorespire/photos/a.125252717636832.24994.125250597637044/785750841587013/?type=3&theater&gt;.

Experiências Psicodélicas Difíceis – Publicado no Hempadão.com

por Fernando Beserra (integrante da APB)

No momento que conversamos sobre experiências psicodélicas, não é incomum o assunto: bad trips. As bad trips são: “condições emocionais induzidas por drogas que variam de um estado agudo de pânico ou um episódio de ansiedade severo a uma experiência francamente psicótica” (ABRUZZI, 1977, p.185). Já Tayler, Maurer e Tinklenberg (1970, p.422) nos dão outra definição interessante, menos precisa, mas mais abrangente: “A crise criada em um indivíduo quando ele se percebe em uma situação ameaçadora seguida do uso de uma droga psicodélica é comumente conhecida como bad trip (má viagem)”. Acredito que possamos ampliar a noção de Abruzzi, incluindo situações de ansiedade leves e moderadas catalisadas por substâncias psicoativas; além de outras formas de crise, incluindo o humor depressivo e a desorganização mental (sem necessário estado psicótico). De fato, mesmo as substâncias psicodélicas com baixo risco fisiológico, a exemplo dos cogumelos com psilocibina (NUTT; KING; PHILLIPS, 2010), evocam em muitos usuários, com destaque para os iniciantes, um grande medo e estados de desorganização mental. Mas, medo do que?

No poético diálogo entre o literato Aldous Huxley [1894-1963] e o psiquiatra Humprhy Osmond [1917-2004], dialogo que partejou o conceito de “psicodélico”, Osmond escreveu os versos: “Para penetrar no inferno ou ter um voo angélico, simplesmente tome uma pitada de psiquedélico (to fathom hell or soar angelic / just take a pinch of psychedelic)” (OTT, 2004).

Experiências ruins, cheias de terror, medo, ansiedade não parecem ser tão incomuns com substâncias psicodélicas. Mas por que? Para que? Quais as melhores formas de evita-las ou suprimi-las? Algumas razões que ajudam a entender as bad trips já haviam sido identificadas antes de 1970. No artigo de Ungerleider et al. (1968), The bad trip: the etiology of the adverse LSD reaction, os pesquisadores investigaram um grupo de 25 pessoas que tiveram bad trips com LSD e o compararam com um grupo de 25 pessoas que utilizavam a substância regularmente sem nenhuma experiência adversa. Não foram encontradas características que pudessem demarcar e predizer o grupo que teria as experiências difíceis. Apesar disso, os autores levantam questões muito importantes. Uma primeira questão: como saber se o LSD usado no mercado ilícito era realmente LSD? Tampouco sabia-se a dose da substância utilizada com precisão e suas impurezas. Segundo, como saber se as pessoas que passaram por Experiências Psicodélicas Difíceis (EPD) não possuíam dificuldades emocionais anteriores e mesmo um maior número de transtornos mentais? Nesta pesquisa, 44% do grupo que passou por EPD e foi atendida já possuía histórico de atendimento psiquiátrico, em comparação a 24% do grupo controle. Tal dado, entretanto, não foi evidenciado como significativo pelos pesquisadores. O grupo controle tinha de uma a três sessões com LSD por semana e faziam parte de um grupo de uso religioso de LSD denominado “discípulos”. Os autores indicam, em suas conclusões, alguns pontos interessantes: os participantes da pesquisa, pertencentes ao grupo controle, tinham amplo suporte grupal durante seus usos de LSD e comentavam que o LSD, tomado em seu grupo religioso, os havia conduzido a Deus, ao amor e a paz da mente (UNGERLEIDER et al, 1968).

Os autores destacam, dentre outros, a conexão das bad trips com o desconhecimento das substâncias utilizadas. Na atualidade, isso continua a ocorrer e destaca-se a abundante adulteração das substâncias sintéticas. Outrossim, parece que não temos em nossa cultura uma educação que favoreça as navegações intrapsíquica e transpessoal. Somos estimulados a temer estes reinos da experiência humana e identifica-los com sintomas do adoecimento mental (GROF, 1987).

No entanto, é muito evidente que as bad trips estão além da questão do desconhecimento das substâncias utilizadas e mesmo da adulteração das substâncias. Mesmo um usuário conhecendo profundamente uma substância psicodélica, tanto teórica, quanto na prática, isso não significa que não passará em algum momento por uma bad trip. Uma das mais importantes teorias para refletir acerca das experiências difíceis com substâncias psicodélicas é a teoria dos psicólogos Timothy Leary [1920-1996], Richard Alpert [1931-], e Ralph Metzner [1936-]. Eles desenvolveram o entendimento de que a personalidade, o estado psicológico e emocional do usuário (set), bem como o ambiente no qual se realiza o consumo (setting) são fundamentais para o desenrolar da experiência psicodélica. O ambiente envolve os arranjos físicos do cenário, mas o depassa. Envolve também o clima e a atmosfera interpessoal, por exemplo. A substância age como uma chave química que libera o sistema nervoso de seus padrões e estruturas ordinários, mas de forma alguma age de forma isolada (LEARY; METZNER; ALPERT, 1964). Uma questão emblemática que se pode relacionar com esta teoria é o uso inadvertido de psicodélicos. Tal uso usualmente provoca bad trips (HERMANNS-CLAUSEN et al., 2017).

O projeto Zendo do Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), que realiza ações de redução de danos em festas, estabelece quatro princípios para lidar da melhor forma com as experiências psicodélicas, a saber:

1. Crie um espaço seguro;

2. Cuide, não guie;

3. Converse sobre a experiência. Sem distrair a pessoa de sua experiência, ajude-a a se conectar com o que está sentindo;

4. Difícil não é sinônimo de ruim; (MAPS, s/d)

De forma geral, quando acolhemos alguém que se encontra em um estado de ansiedade ou mesmo em um estado psicótico transitório, relacionado ao uso de uma substância psicodélica, é fundamental a criação de um ambiente acolhedor. Em ambientes de eventos ou festas, a equipe de redução de danos trabalha de forma próxima a equipe médica, de forma a avaliar os sinais vitais, por exemplo. Em crises de ansiedade e estado psicótico temporário, em geral, o melhor atendimento é o psicossocial (ABRUZZI, 1977) na medida em que os serviços médicos tradicionais, historicamente, não são treinados para o suporte compassivo necessário (OAK et al., 2015). Mesmo na famosa Woodstock os serviços médicos, que não esperavam o grande público, e tiveram que improvar de forma impressionante, contrataram o grupo Hog Farm para o atendimento das bad trips. Entendiam, desde aquele momento, que o acolhimento seria mais útil do que a prescrição do antipsicótico Clorpromazina – que já causou diversos problemas, p.ex, na interação com a substância “STP”. Em Woodstock foram atendidos 797 casos de experiências difíceis com substâncias, dos quais apenas 72 foram encaminhados para atendimento médico e 28 foram tratados com farmacoterapia (KELLY, 2010).

O ambiente acolhedor envolve uma escuta empática e uma sensibilidade aguçada. Profissionais que trabalhem com saúde mental podem ter mais facilidade desde que não sejam preconceituosos ou desconheçam o uso de substâncias psicodélicas. Ainda cabe ressaltar que não deve buscar guiar a experiência, como se o ideal fosse eliminar aquele estado a toda custa. Em primeiro lugar, tal busca além de infrutífera, pode aumentar a ansiedade do psiconauta. Sempre quando não souber como intervir, é melhor a escuta acolhedora, sinalizar para o viajante que o cuidador está ali para acompanha-lo e que, portanto, o usuário não está sozinho.

Em uma compreensão, orientada pelos conceitos da psicologia analítica, a crise psicológica indica uma perda do equilíbrio. Esta perda pode assemelhar-se a um distúrbio psicótico, embora possa diferir da mesma pelo fato “de conduzir finalmente a uma saúde mais plena” (JUNG, 1928/2011, pár. 51). Os psicodélicos nos colocam, muitas vezes, em contato com uma grande profundeza interior, isto é, com aquilo que denominamos de inconsciente coletivo. Tal nível da experiência humana, entendida muitas vezes como transpessoal, está fora do controle do eu. Se tivermos um olhar simbólico e uma subjetividade resiliente o suficiente para nos relacionarmos com estas figuras do inconsciente, que emergem durante a experiência psicodélica, há uma grande oportunidade de aprendizado e ampliação da consciência. As imagens e afetos que ocorrem durante a experiência psicodélica provém do inconsciente. Na psicologia analítica, entende-se que há um processo autoregulatório na psique, isto é, como parte do nosso organismo, a psique, tal como o nosso corpo, busca atacar “agentes patogênicos” e superar situações de adoecimento, mantendo a saúde. Na psique, não são agentes externos, mas formas de se relacionar consigo mesmo ou com o meio, que se tornaram unilaterais e impedem a adaptação ao mundo ou a singularidade daquela pessoa (adaptação interna). Desta maneira, as imagens do inconsciente que se apresentam à consciência não são aleatórias, mas frutos desta autoregulação. A adaptação excessiva a papéis sociais em detrimento de uma existência autentica, por exemplo, pode produzir tanto sofrimento quanto uma falta de adaptação radical àquilo que a sociedade e os outros demandam. As substâncias psicodélicas podem retirar, de forma radical, nossas máscaras sociais (personas), desnudando aquilo que não era visto. Como resultado destas experiências complexas com substâncias, as imagens provenientes não devem ser simplesmente descartadas, pelo contrário, a integração da experiência é algo fundamental para a saúde mental.

Com uma visão psicodinâmica em mente, o psiquiatra Stanislav Grof defendia que o principal motivo das EPD era a não aceitação da experiência. Quando recusamos e buscamos manter as imagens reprimidas no inconsciente este comportamento aumenta a necessidade daquela imagem se apresentar a consciência de forma irresistível. Há uma necessidade psicológica de que o eu a perceba e interaja com ela. Quanto mais o eu insiste em não vê-la, mais impactante será a imagem e mais intenso o afeto presente. Leary, Metzner e Alpert (1964, p.10) descrevem está dinâmica de uso entre os “heavy game players”, isto é: “aqueles que se agarram angustiadamente a seus egos, e para aqueles que tomam a droga em um cenário não-apropriado, a luta para voltar à realidade começa cedo e normalmente dura até o fim da sessão”.

Cabe destacar que muitos que cuidarão de uma bad trip não são nem psicólogos, nem psiquiatras. Por isso o princípio geral da redução de danos para lidar com as EPD não deve se amparar na tentativa de integração do material que emergiu, mas na criação de um contexto acolhedor e em um espaço macio o suficiente para que a experiência se desenrole. Fora dos estímulos excessivos; fora dos riscos diversos; em um ambiente acolhedor e protegido, se molda um espaço adequado para que a experiência ganhe contorno e seja menos apavorante. Abre-se, ao menos em possibilidade, a chance de olhar para aquelas imagens com menos terror. E, desta forma, que novas narrativas menos assustadoras possam se desenvolver. Quando olhamos de forma menos apavorada para o inconsciente, antigos monstros se tornam outras personagens da alma.

Por fim, a depender da intensidade da experiência psicodélica difícil (EPD), não se deve simplesmente esquecer ou abandonar aquela experiência e partir para uma próxima. Pelo contrário, o acolhimento psicológico com fins de integração dos conteúdos oriundos da EPD é essencial. Há indicações de psicoterapia de base junguiana, transpessoal, reichiana, ou mesmo outras tecnologias terapêuticas, como a respiração holotrópica. No Brasil, um dos pontos importantes, que já iniciamos o dialogo via Associação Psicodélica, é a criação virtual de uma rede de terapeutas, psicoterapeutas e médicos que os usuários de psicodélicos que tiveram experiências muito difíceis possam acessar. Afinal, não é desprezível o conjunto de médicos, psicólogos ou terapeutas em geral que são preconceituosos e, portanto, podem atrapalhar o psiconauta em sua busca de superação de um estado mental ou comportamental que lhe causa sofrimento.

Referências:

GROF, S. Além do cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia. São Paulo: McGraw-Hill, 1987.

HERMANNS-CLAUSEN, M. et al. Bad trip due 25I-NBOMe: a case report from the EU project SPICE II plus. Clinical Toxicology, maio. 2017.

JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1928/2011.

KELLY, J. SEM at Woodstock. JEMS, 2010. Disponível em: <http://www.jems.com/articles/print/volume-35/issue-5/major-incidents/ems-woodstock.html>.

LEARY, T.; METZNER, R; ALPERT, R. The psychedelic experience: a manual basead in the Tibetan Book of the Death. 1964.

MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies). Manual de treinamento do Zendo Project. Tradução: Coletivo Respire. s/d.

NUTT, D. J.; KING, L. A.; PHILLIPS, L. D. Drug harms in the UK: a multicriteria decision analysis. Lancet, London, 376, p. 1558–65, nov. 2010.

OAK, A. et al. A history of the psychedelic care services In: OAK, A. et al.

OTT, J. Pharmacotheon: drogas enteogénicas, sus fuentes vegetales y su historia. Madri: La Liebre del Marzo. 2004.

TAYLOR, R. L.; MAURER, J. I.; TINKLENBERG J. R. Management of bad trips in na evolving drug scene. JAMA, jul. 1970.

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